Litoral Sul da Bahia - Parte 3: Costa do Dendê (fim)

“Situada entre a foz do Rio Jaguaripe e a Baía de Camamu, a Costa do Dendê é um verdadeiro mosaico de praias, baías, manguezais, costões rochosos, restingas, nascentes, lagoas, rios, cachoeiras e estuários. Seus 115 km de litoral abrangem praias intocadas, de águas claras e quentes, com formações variadas de recifes de coral e emolduradas por vastos coqueirais, figuram entre as melhores do país nos principais guias do gênero. “


DIA 11: BARRA GRANDE A BOIPEBA

Saímos de Barra Grande cedinho, tínhamos combinado as sete com um pescador que iria fazer nossa travessia de barco até a Barra de Serinhanhém, e acordamos cedo, aprontamos as coisas e fomos ao encontro dele.

Deu um certo aperto no coração deixar este lugar tão lindo e que desfrutamos tão pouco, mas era preciso seguir adiante. E de novo como que um presente, os céus mandaram pra gente um lindo início de dia. Um céu limpo, azul e com um imenso arco-íres a nos esperar para despedir de Barra Grande.

A travessia de barco foi longa, o nosso amigo barqueiro, nos levou num barco meio antigo e ainda disse que não eram todos os barqueiros que faziam essa travessia, porque realmente íamos passar em alto mar. Confesso que numa parte da travessia o mar ficou um pouco agitado, mas o barqueiro teve pleno controle da situação e conseguimos chegar bem do outro lado.

A paisagem durante a travessia linda demais e já dava pra sentir o que nos esperava do outro lado. Novamente praias lindas e desertas.







Passamos por Pratigi, famosa pela Festa Have “universo paralelo”, que acontece todos os anos e é internacionalmente conhecida! Ao passar por lá foi possível ver na beira da praia restos de lixo, muito provavelmente, ainda resquícios da festa que ocorreu no início deste ano. Mas também passamos por uma plantação imensa de coqueiros, onde pudemos tomar uma água de coco natural e colhida alí na hora. Tudo graças ao Thiga que levou (acreditem) o que ele chama de “bom senso”, um facão gigante...rss...pelo menos foi útil em algum momento da viagem.






Bom, ao final dessa parte da praia, teríamos que fazer outra travessia, para uma vila chamada Cova da Onça, e lá sim teríamos mais dificuldade, pois do nosso lado não havia cidade, e teríamos que dar um jeito de conseguir um barco pra fazer a travessia. Mas nada complicado pra gente...





Lá fomos nós gritar para que algum barco que estivesse passando, lá no meio do mar, escutasse, tivesse compaixão e viesse ao nosso encontro. E assim fizemos, gritamos como loucas (as mulheres são boas nisso) e eis que um pescador, lá do mar também gritou “ Quê que tu qué mulé???” ...rss... tentamos responder, mas ele sem entender chegou mais próximo a margem.

Resumindo a história, ele voltou pro mar, buscou outra lancha de alguém que também passava para ajudar na travessia. Dividimos o grupo e as bikes nas duas lanchas e lá fomos nós de novo. Esta travessia seria até bem rápida, não fosse o combustível do barco que eu estava ter acabado no meio do caminho. Sim amigos, nada é não ruim que não possa piorar...rss... Brincadeiras a parte, tudo se resolveu rapidamente, amarra uma corda de um barco no outro e pronto, rapidinho estávamos lá do outro lado.








Cova da Onça é uma linda vila de pescadores. Gente, que lugar lindo e ainda sem a invasão dos turistas. Este foi o local pelo qual passamos que, com certeza, tinha a sua essência mais preservada. Assim que chegamos, as crianças do lugar já foram se aproximando e muito curiosas vieram ver as bicicletas e querer saber o que fazíamos por ali.
Um deles, o Pedrinho, até virou nosso mini guia, sabia de tudo, nos levou à mercearia (que estava fechada e ele foi na casa do dono chamar pra nos atender), levou na casa de um pescador (pois cogitamos ir até Boipeba de barco, mas logo desistimos quando soubemos do valor pra atravessar), enfim, nos apresentou o local (que era basicamente uma rua ), mas logo teve que ir, pois já era hora de ir pra escola.

Ficamos pouco tempo ali, mas o suficiente pra causar a curiosidade das pessoas e também pra sentir como aquele local era especial.



Pedrinho, agora sim na escola!!!Mas, de olho na rua! Tchau Pedrinho!


Optamos por ir até Boipeba por uma trilha que passa por dentro da ilha, seriam apenas uns 14 km, era só seguir o trilho dos tratores (único meio de transporte motorizado da vila) e seria tranqüilo, pois a “estrada” estava boa, #assimelesdisseram, só que não, nada disso, foram os 14 km mais difíceis da viagem com toda certeza, pelo menos eu senti assim.  Foi bem complicado, muita lama, areia solta, rios pra atravessar, teve de tudo neste caminho e o que menos fiz foi pedalar! J Empurrei a bike o tempo todo praticamente, mas confesso que o percurso é muito lindo. Sempre tenho que afirmar, vale a pena cada gotinha de suor derramada.




Finalmente chegamos a Boipeba, e ainda era cedo, fomos em busca de um local pra ficar e logo encontramos um hostel bem bonito e que éramos praticamente os únicos hospedes. Em Boipeba já sentimos que o valor das hospedagens aumentava, talvez por estarmos aproximando de Salvador.

Enfim, neste dia, ainda foi possível ir a praia, caminhar na areia e ver aquele lindo espetáculo de todos os dias, o por do sol e o nascer da lua. Cada dia um presente mais lindo desse nosso Deus maravilhoso!!!

O dia seguinte foi dia de preguiçar...acordamos, tomamos aquele café. Gente o café deste hostel só perdeu pra Pousada Marinas, foi muito bom!!! E então demos uma geral nas bikes (inclusive levamos bronca da moça bipolar da pousada por estarmos usando a água), lavamos roupa, enfim, dia de dar geral! Depois disso tudo fomos preguiçar na praia (menos o Thiga, que resolveu preguiçar no hostel até mais tarde).

Fomos caminhando pela praia, passamos por umas trilhas no meio da mata e depois chegamos na praia Tassimirim, uma praia linda, deserta, encontramos uma barraquinha de um casal super simpático. Estacionamos ali (afinal tinha sombra, água de coco gelada e o mais importante, cerveja gelada). Essa barraca era super interessante, feita apenas de madeira e folha de coqueiro, os donos disseram que a areia estava “enterrando” a barraca aos poucos, e de fato estava, pra entrar dentro dela eles já tinham que se abaixar. Deram a ela o nome de Renascer, pois sabiam que mais dia menos dia, ela teria que renascer em algum outro lugar.








Ficamos ali por um tempo, depois andamos mais um pouco e chegamos a praia Coeira, nesta praia tem até uma barraca famosa e antiga em que eles preparam os frutos do mar na beira da praia mesmo. Ficamos mais um pouco, o Marcus (vulgo Netuno ou Salim) tirou seu chochilo sentado, como sempre, e depois fomos pro encontro do mar com o rio ver mais um espetáculo do dia...outro lindo por do sol a nos presentear.

Fico pensando em como essa viagem foi linda, passamos por tantos lugares lindos, e que se não fosse assim, viajando de bike, certamente não passaríamos e ainda, todos os dias, sem exceção recebíamos um presente lindo dos céus.

Na verdade esse presente a gente recebe todos os dias, mas infelizmente, com o correr da vida que nos impomos a viver, muitas vezes não damos valor a essas coisas lindas e simples que nos acontecem todos os dias!!!


A noite preparamos um banquete no hostel,  um jantar super gostoso pra brindar mais um dia que se foi...tudo patrocinado pelo nosso CU (lembram dele?) eram os últimos centavos do CU (Caixa Único, pra quem não sabe) e foi uma ótima forma de gastar os últimos centavos.




O hostel...



Resumo do dia:


Distância Percorrida: 37km
Distância acumulada: 437
Hospedagem: Geographic Hostel . Diária: R$ 30,00 por pessoa, quarto compartilhado.




DIA 13: BOIPEBA A MORRO DE SÃO PAULO


E de novo um novo dia nascendo...lá fomos nos em busca de um café da manhã (o do hostel se iniciava as 8hs e não poderíamos esperar) e também em busca de alguém pra fazer a nossa travessia (era só atravessar um pedaço bem pequeno do rio, bem rápido).

A parte da travessia foi tranquila, encontramos um senhor que nos levou e cobrou justos R$ 5,00 por pessoa (realmente é muito perto), mas a parte do café não foi tao simples assim. Não tinha uma "padaria" mesmo na vila, não naquela hora, encontramos um local que preparou uns pães com queiJo, mas sem café, e lá fomos nós.

Boa parte desse trajeto eu já conhecia e era realmente lindo. O início passamos por praias com vasta extensão de areia, um tapete que só (na maré baixa, claro).  Andamos por um bom tempo pela praia, mas sabíamos que ao chegar em Guarapuá (que é uma praia linda) teríamos que ir por uma estrada por dentro da ilha. Mas seria um percurso bem pequeno até a praia do Encanto (que também o nome já diz tudo).

Bom, em Guarapuá seguimos pela estradinha por dentro da ilha, vai ser tranqüilo (eles disseram) a estrada era bem bonita, arborizada, alguns riozionhos (uns nem tão inhos ) pra atravessar e já quase chegando a praia do espelho, a estrada se transformou em quase que um mangue, era lama que não acabava mais. Mesmo assim, a duras penas, continuamos nós...a bike (e a gente) era pura lama.


Mas este foi um trecho bem curto, porque logo em seguida chegamos à praia do Encanto. Gente e que encanto! Não sei, mas a primeira impressão que tive era que estava presenciando uma cena pós tsunami. Era bonito, mas ao mesmo tempo assustador. A maré estava muito baixa e o que víamos era o mar bem distante e na areia imensas raízes das árvores , devastadas possivelmente pela força do mar.



Seguimos pela praia, com essa paisagem nos seguindo por um bom tempo, mas logo a frente já estávamos na chamada "Quarta Praia", e muito rápido a civilização dava o ar da graça e já sentíamos como Morro estava cheio de turistas (era véspera do maior feriadão do ano).

Pra nos recepcionar encontramos um vendedor de queijo coalho, o Riquinho, realmente ele deve estar ficando rico com a venda dos queijos, pois foi o mais caro de toda viagem...hehe...mas valeu a pena, finalmente queijo coalho pra comemorar nossa chegada a Morro!!!

Continuamos seguindo, agora sentido a civilização, em busca de pousada pra ficar...não ia ser tarefa fácil, mas com muita sorte conseguimos vaga numa pousada indicada pela Andréa. O Gaúcho nos recebeu super bem e arranjou um lugar bom pra gente. De quebra, ainda deixou a gente dar um trato mais que especial nas meninas, digo, nas bikes.

Fomos surpreendidos com a informação de que os policiais de Salvador estavam em greve e que a situação por lá não estava boa. Neste momento cogitamos a possibilidade de ficar um dia a mais em Morro, mas como já tínhamos reservas em Salvador resolvemos manter os planos iniciais.

Agora era só curtir...teríamos praticamente dois dias em Morro e mais dois em Salvador.
Apesar da ilha estar lotada (não parava de chegar gente), foi bem tranquila nossa estadia por lá.

Presenciei um nascer da lua dos mais lindos que já vi em toda minha vida, creio que o mais bonito, lá do alto de onde tem a tirolesa, vimos um nascer da lua incrível. A lua estava cheia e nascia no oceano. Acho que nenhuma foto seria capaz de captar toda beleza deste momento. Mais uma vez me senti uma pessoa muito abençoada, a nossa viagem estava praticamente no fim e deu tudo certo. Um grupo tranqüilo, sem nenhum problema de convivência, dias lindos compartilhados e uma experiência de vida única. Mais uma vez só agradeci ao nosso Paizão por todas essas belezas que ele nos proporcionou nestes dias!!!



Dia seguinte dia de folga, só preguiçando pela praia. Tentei ver algo de vida marinha nas piscinas naturais mas não tinha muita coisa. Estavam rasas demais as piscinas, a maré super baixa e a água do mar tão quente que chegava a incomodar ficar por muito tempo (e olha que gosto bastante de água quente)!!!

Neste dia fomos realizar nosso ritual de encerramento da viagem...hahaha...ninguém entendeu nada né mesmo? Quando estávamos lá em Canavieiras, numa linda noite, fizemos uns pactos de vida (aquelas coisas de adolescente)hehe.. o primeiro foi que tínhamos o trato de pra todo sempre pedalar (não necessariamente todos juntos, claro), pelo menos a nossa idade em cada aniversário. Esse trato eu cumpri bem no meio desta viagem!!! E o outro foi de daí a dez anos voltarmos naquele local (Morro), onde estaríamos enterrando nosso testamento...hahhaa...a Maysinha carregou desde Canaieiras uma garrafa de vidro pra gente poder enterrar o testamento no momento oportuno, e , aquele foi o momento.

Todos juntos, redigimos o texto, assinamos, botamos na garrafa e lá enterramos. Tudo seguindo um ritual. O Marcus marcou o local (super fácil de descobrir daqui a 10 anos..claro):

“Erro de 30m. 13°23’30.2S 38°54’23.0W
Descrição do local: Na quarta praia de morro de São Paulo anda mais uns 300m.
Vindo da água passa por uma castanheira sem galhos na parte de trás, segue até uma árvore com dois troncos antes da cerca. A garrafa está entre a árvore e a cerca. “

Simples assim. Espero que todos, daqui a 10 anos, estejamos juntos lá, para se reencontrar e tentar encontrar (ou não) a nossa garrafa!!!

Depois de todo esse longo ritual, voltamos pra vila pra tentar definir como iríamos pra Salvador. Alguns catamarãs não queriam levar as bikes, a Dona Rosa da empresa Farol do Morro nos boicotou,  mas depois de muita conversa na empresa Biotur conseguimos comprar as passagens.

Resumo do dia:


Distância Percorrida: 26km

Distância acumulada: 463km
Hospedagem: Pousada Coqueiro de Caita. Diária R$50,00 por pessoa com café.



DIA 5: MORRO DE SÃO PAULO A SALVADOR


Triste dia, estava realmente chegando ao fim nossa viagem. Tomamos café, arrumamos as coisas e saímos pra pegar o barco. No caminho criei coragem e segui a Maysa, fui descer a Tirolesa. Ela é considerada a maior tirolesa do Brasil que cai no mar. São 340 metros de extensão e 70 de altura. Gente que medo. Nem acredito que encarei esse desafio. O negócio é muito alto, mas mesmo assim criei coragem e fui.
E se der medo? Vai com medo mesmo!!!


A Maysa foi primeiro e em seguida eu...O instrutor teve que me dar um empurrão, se não não teria coragem de descer. Dá medo, mas vale a pena. É tão rápido, mas a vista é tão tão linda e você cai direto no mar. Muito bacana.

Bom, diversão concluída, fomos despedir do Marcus (ele resolveu ficar em Morro mais uns dias) e seguimos rumo a Salvador.
Foram mais de 3 horas de Catamarã, deu tempo de dormir, acordar, dormir de novo, enfim...viagem longa.

A chegada é bem bonita, tem-se a vista do Mercado Modelo, do Elevador Lacerda, da parte baixa de Salvador. Fomos pedalando pro Hostel, que ficava no Pelourinho. Era bem perto, só a ladeira que pegamos que era imensa.



Deu pra sentir que o clima em Salvador estava tenso ainda devido a greve do policias (que ninguém sabia ao certo se havia ou não chegado ao fim). Mesmo assim chegamos com tranqüilidade ao hostel Larajeiras. Um hostel lindo e super acolhedor, e ainda, super bem localizado.

Enfim, a viagem de bike acabava ali... foi muito bacana fazer essa viagem da forma que fizemos, pela praia. É sim cansativo, as vezes sofrido, mas o que se vive, não se pode presenciar a não ser viajando dessa forma.

Vou levar comigo dias de companhias muito especiais, paisagens lindas, pessoas lindas que encontramos pelo caminho. Eu já amava esse estado lindo que é a Bahia e essa viagem só fez aumentar ainda mais meu amor pelo estado e pelas pessoas!!!

Espero que tenham gostado do relato (dessa vez bem detalhado) e precisando de ajuda é só falar...afinal este é o real objetivo deste blog, ajudar e incentivar pessoas que querem se aventurar neste lindo mundo chamado cicloturismo!!!

Marcus ta aí a baiana te representando, ok?! :)

Boas pedalADAs!!!

Resumo do dia:

Distância Percorrida: 2km
Distância acumulada:465km (conta algumas travessias de rio)
Distância real pedalada: 
Hospedagem: Laranjeiras HostelDiária R$ 26,00 por pessoa em quarto compartilhado.








Comentários

  1. Que delícia de viagem!! Viajei junto com você!! Demais!!

    Fiquei com super vontade de ir pra praia agora!! Ahahahahahaha

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  2. Legal!!! parabéns de novo!
    Quantos dias foram no total??

    Obrigado!

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    Respostas
    1. Oi Rafael,

      então, depois de ler, se ainda tiver dúvidas pode me escrever no e-mail pedaladasblog@gmail.com . Abraços

      Excluir

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