PedalADA pela América - Brasil – Santa Catarina (Finalmente...)


Quando sentir duvidas sobre o motivo da sua viagem, sobe na bike, pedala e neste momento todas as dúvidas vão passar e o verdadeiro sentido de tudo vai aparecer...


Não foram exatamente essas as palavras ditas por um amigo, mas foi exatamente isso que eu senti...tive a certeza de tudo nas primeiras pedalADAs.
Depois de todo momento difícil da partida, seguimos eu e a Branquinha de avião rumo a Floripa. Foi uma longa viagem, eu tentava disfarçar de mim mesma, mas estava ansiosa, por saber como seria estar na estrada. Ainda bem que o Fábio foi me encontrar no aeroporto, isso me deu uma certa dose de tranquilidade. Mesmo assim, sair do aeroporto e montar toda bike, com todos os alforges, literalmente pela primeira vez foi uma sensação diferente, foi meio que um parto, como se daquele momento eu estivesse realmente iniciando a viagem, e de fato era.

Depois de me recepcionar ele me levou pra casa da Renatinha, uma amiga que eu ainda não conhecia, que me recebeu depois de um contato no Warmshowers.
Bem, essa foi a primeira de uma série de anjos do caminho, a Renatinha e a Leira (sua gatinha) me trataram infinitamente bem, ia ficar dois dias e acabei ficando quatro, ela me tratou como uma amiga de tempos, mesmo trabalhando tanto ainda encontrou tempo pra passear comigo e pra me ensinar muitas coisas sobre viagem de bike...sim, ela ficou simplesmente 15 meses na estrada e conheceu 18 países, era muita foto e muita história pra contar...e com ela aprendi muito, com seu jeito simples, batalhador e acolhedor.

A noite que antecedeu a partida fiquei muito ansiosa, nossa, não dormi, mas confesso que isso já acontecia há dias...Deixar a casa da Renatinha não foi fácil, o mundo esperava por mim e pela Branquinha e a gente precisava seguir, afinal o Fábio, que seguiria comigo no primeiro dia, já estava lá esperando a gente...
Mais um abraço apertado e mais anuviar das vistas...haa preciso aprender a ser forte...mas ainda sou não...



Fábio, esse outro anjo do caminho, que o destino me presenteou como amigo, seguiu comigo neste primeiro dia. E ele também me presenteou com um caminho lindo, especialmente pra fugir da famigerada BR 101.
Seguimos em direção ao sul da ilha de Florianópolis, passamos por vilarejos lindos, de traços portugueses, depois vilas de pescadores, tudo muito diferente da Florianópolis que conheci...Lá no fim da ilha conseguimos um barquinho com um pescador que cuidou de nossa travessia até Enseada da Pinheira. Depois foram caminhos de terra, de areia, estradinhas tranquilas, mas com subidas legais.



Só depois entendi, o Fábio tava querendo ver se eu dava conta do recado, ele preparou um caminho no capricho e o sol ajudou bastante neste dia (soquenão)...cansei bastante, mas fiquei imensamente feliz porque o meu corpo respondeu muito bem a tudo, às subidas, ao peso....
Fomos até Garopaba, lá ele seguiria de volta a Floripa e eu ficaria até o outro dia.
Fiquei muito feliz por ter a companhia do Fábio! Acho que ele não imagina quanto de ânimo isso me deu, me senti mais forte. Fábio, gratidão imensa por ter feito esse sacrifício de pedalar debaixo do sol rachando em plena segunda...eu sei, você preferia estar trabalhando...rss


Depois das despedidas segui pro camping, seria a primeira noite acampada. Mas fiquei feliz demais, aqui no sul os campings tem uma estrutura bem boa, me senti num hotel 5 estrelas dentro da minha maloquinha.
Apesar do cansaço, custei a dormir, fiquei pensando naquele dia, o primeiro de muitos que viriam, pensei que nos dias seguintes teria que cruzar a estrada somente eu e a Branquinha, mas também tive muita gratidão por estar alí, no primeiro dia de uma realização de um sonho.

Apesar do cansaço, custei a dormir, fiquei pensando naquele dia, o primeiro de muitos que viriam, pensei que nos dias seguintes teria que cruzar a estrada somente eu e a Branquinha, mas também tive muita gratidão por estar alí, no primeiro dia de uma realização de um sonho.

Dia seguinte, tentei acordar cedo, mas não consegui. Só as oito saí do camping pra ir tomar café, umas oito e meia estava na estrada...Iria continuar seguindo o trajeto do Fábio, tentando fugir da BR 101 enquanto fosse possível... e assim eu fiz até um pouco depois da praia do Rosa, quando então me perdi nas estradinhas de terra e então resolvi ir pra BR 101. Já eram quase meio dia e ainda teria uns bons 70km pela frente, e caso seguisse naquele ritmo não chegaria tão cedo ao Farol de Santa Marta.

Pegar a 101 pela primeira vez foi estranho, eu que vinha seguindo na tranquilidade das estradas de terra, onde os maiores barulhos eram dos pássaros e quando muito de um carro ou outro que vez por outra cruzava meu caminho... achei bastante estranho. Mas, também sabia que isso ia acontecer mais cedo ou mais tarde.

Este dia o sol foi escaldante e estava quase ficando sem água, e já faltavam menos de 15 km pra chegar a Laguna, então avistei um galpão com escritos “ vende-se gelo”, pensei, claro, aí vou encontrar um pouco de água boa.

Parei, eram pouco mais de uma hora da tarde. Encontrei um senhor que parecia estar em seu horário de almoço, perguntei se vendiam água ele disse que não, mas que se eu quisesse poderia encher minhas garrafinhas.
Bom, claro que aceitei, e quando ele retornou tinha a água mais gelada e gostosa do mundo. Tomar essa água me deu um gás pra seguir até Laguna. E assim fiz.

Na entrada de Laguna parei no posto de informações turísticas. O senhor que me atendeu foi extremamente simpático e me indicou os pontos turísticos a visitar, além de me contar um pouco de toda história passada nesta simpática cidade.

No início da colonização do Brasil, o território onde seria instalada Laguna constituía a parte mais meridional do Brasil, na Capitania de Santana. Neste município passa a linha imaginária criada no tratado de Tordesilhas em 1494, separando as terras de Portugal à leste e Espanha à oeste. Por este motivo, Laguna tornou-se um importante ponto geográfico para Portugal. AnitaGaribaldi é uma das personagens mais ilustres dalí, considerada “grande heroína dos dois mundos”

Visitei alguns pontos turísticos, comi, tomei um belo caldo de cana e segui para pegar a balsa e então seguir até o Farol de Santa Marta.
A balsa já estava saindo, foi uma sorte, porque já começava a chover. Assim que cheguei ao outro lado a chuva estava mais grossa, mas como teria menos de 20 km pela frente e já eram mais de quatro da tarde, resolvi seguir com chuva mesmo.
A chuva durou todo caminho, mas a estrada era muito boa, com ciclovia em boa parte dela (há se todas fossem assim). A parte pior ficou nos 2 últimos km que eram de pura areia e com chuva parecia não acabar nunca.




Ao longe já avistava o farol e só pedia pra encontrar facilmente o Camping do Cardoso, local que a Carol – Giramérica havia ficado e dito ser muito bom. Os meus pedidos foram atendidos e nos primeiros km de vila avisto a placa do camping.

Como cheguei com muita chuva o dono deixou que eu armasse minha barraca embaixo de uma garagem. Foi uma sorte, pois naquela noite presenciei ventos fortíssimos, como eu nunca havia presenciado em toda minha vida. Vento tão forte que conseguiram derrubar umas duas barracas do camping no meio da noite.

Pra se ter uma ideia, mesmo estando debaixo da garagem, num abrigo, sentia o vento bater forte na barraca. Não consegui dormir de tensão e com medo do barulho do vento nas árvores. Só quando já era claro consegui acalmar o corpo.

O dia seguinte foi nublado, fiquei descansando por lá, mesmo com o tempo não muito bom caminhei bastante pela praia, e foi bem legal. Fiz um pouco de yoga, alonguei um pouco tentando não me esquecer dos alongamentos do circo.

O camping do Cardoso é bem legal, tem uma estrutura muito boa de cozinha, banheiros, lavanderia. Mais uma vez me surpreendi positivamente com o local. 
E o Farol de Santa Marta é um charme, uma vila pequena, sem muito movimento e mesmo num dia sem muito sol consegui apreciar bastante o local.


Bom, dia seguinte mais uma vez hora de partir pra cidade de Araranguá. Seriam mais de 100km pela frente e novamente tentei fugir da 101 e me dei bem. Estradinhas lindas, sem muito movimento de carros e até mesmo de pessoas. Há, cachorros tinham muitos, rss...

Neste dia parei numa barraquinha na beira da estrada pra perguntar se vendiam um pedaço de melancia. A guria foi perguntar pra tia e voltou com a resposta de que não, seria somente toda fruta. Claro que eu não ia conseguir seguir com uma melancia inteira e nem mesmo comer toda ela alí. A tia na hora que me viu e viu a Branquinha veio falar com a gente. Na hora partiu a melancia ao meio e disse, sirva-se a vontade “guria”. Não quis me cobrar nada por ela e ainda me deu dicas preciosas do caminho a seguir.
Percebi que essa região é grande produtora de melancias, em quase todas as casas tinham a fruta pra vender.

Cheguei em Araranguá cedo, eram duas da tarde. Mandei uma mensagem pro casal do warmshoerrs que me receberia a Patrícia e o Sander pra avisar que estava por perto, como vi uma placa dizendo praia e Morro do Convento resolvi ir lá visitar de uma vez, já que ainda era cedo.
Parei pra comer e quando assustei o Sander estava lá na lanchonete. Como disse que estaria por alí e ele também estava trabalhando por lá, resolveu ir ver se me encontrava. Foi legal o ter encontrado. Ele seguiu de volta pro trabalho e eu fui visitar o Morro dos Conventos.

Bom, valeu a pena seguir a dica e subir o morro pra chegar até o Farol. A vista é muito linda. Dá pra ver o rio desaguando no mar, dá pra ver a balsa que peguei, tem uma vista linda da praia. Depois ainda passei na rampa de voo livre, onde apreciei mais um pouco de toda beleza.

Bom, depois de visitar tudo resolvi seguir pra casa do casal em Araranguá, a uns 15 km de onde eu estava e assim fiz. Com as explicações detalhadas do Sander consegui chegar facilmente. Eles me receberam super bem, me apresentaram os lindos cachorros, o Dino um labrador lindo e brincalhão e a menininha ainda sem nome. Uma linda cachorrinha que eles encontraram abandonada na serra.

As conversas sobre viagens foram muitas, logo que cheguei já me contaram de outros tantos visitantes que receberam, viajantes de vários países. Muitos viajando há muitos meses. Inclusive, no dia anterior, haviam recepcionado um casal de Portugal que está viajando em lua de mel há 25 meses...há foram muitas lindas histórias compartilhadas.

Neste mesmo dia que cheguei o Sander fez um convite tentador, pra eu ficar lá até o domingo pra que eles fossem comigo subir a serra e me apresentar a famosa serra gaucha e os seus lindos canions. Disse que não neste momento, porque estava ansiosa pra pedalar (coisa de iniciante).

No dia seguinte planejava seguir cedo, mas não consegui acordar. Botaram sonífero na minha cama e fiquei dormindo até quase nove da manhã.
Acordei com uma mesa de café lindamente montada e um bilhetinho da Patrícia dizendo que voltava logo. Quanta delicadeza deste casal. Meu corpo pedia um pouco de descanso e resolvi ficar com eles e aceitar o convite pra subir a serra.
Fiquei descansando dois dias, aproveitei pra dar uma geral na bike, regular os alforjes que estavam desengonçados e, claro, ouvir as muitas infinitas histórias que este lindo casal tinha pra contar.

No domingo fomos subir a Serra da Rocinha e visitar o canyon Amola Faca. Fiquei impressionada com tamanha beleza. As montanhas muito altas e as formações dos canyons de uma grandeza impressionante. Neste momento percebi ainda mais o quanto somos pequenos diante das belezas da natureza e que a cada dia me impressiona ainda mais.

Neste canyon, se não estou enganada, avistamos a cachoeira mais alta do Rio Grande do Sul. De lá também é possível avistar Laguna bem ao longe e quando está com o céu bem limpo se pode avistar também o mar.
Bom, depois deste passeio, ainda teve um piquenique no alto da serra, vimos um lindo fim de dia, aprendi sobre as araucárias e sobre os pássaros gralhas azuis, que são responsáveis por “plantar” as araucárias. Eles escondem as sementes desta planta na terra pra voltar e comer depois, só que se esquecem onde deixaram e aí nascem estas lindas árvores.




Há, mas ainda tinha uma surpresa, eles me levaram pra conhecer a famosa Serra do Rio do Rastro. Era noite, mas mesmo assim deu pra sentir a grandiosidade e beleza desta estrada. São 15 km de estrada bem sinuosa, uma lindeza de caminho. Fiquei pensando como deve ser bom subir e descer esta serra.

O domingo foi lindo, me senti uma pessoa abençoada por estar ao lado de pessoas tão boas, que nem me conheciam, mas que me presentearam com sentimentos, paisagens, histórias lindas e principalmente com muito amor a troco de nada.

No dia seguinte hora da despedida, mas antes disso ainda fui presenteada de novo, plantei minha primeira árvore, um lindo Ipê. Me senti muito feliz por isso e a hora da despedida mesmo não foi fácil...saí de lá com lágrimas nos olhos mas com a certeza de que além de um abrigo seguro por dias eu ganhei muito mais que isso, ganhei amigos de uma vida inteira. Aprendi também que o verdadeiro sentido dessa viagem não é a viagem em si, mas as relações e os aprendizados que se advém dela.

Mais uma vez vou rumo a estrada com o coração repleto de muito amor e muita gratidão.


Não somos mais
Que uma gota de luz
Uma estrela que cai
Uma fagulha tão só
Na idade do céu

Não somos o
Que queríamos ser
Somos um breve pulsar
Em um silêncio antigo
Com a idade do céu

Calma!
Tudo está em calma
Deixe que o beijo dure
Deixe que o tempo cure
Deixe que a alma
Tenha a mesma idade
Que a idade do céu
...
A Idade do Céu - Paulinho Moska )



Resumo da viagem:
  • Dia 1 - Florianópolis – Garopaba => 86 km (GPS https://www.strava.com/activities/244267178) – Hospedagem Camping Garopaba
  • Dia 2 - Garopaba – Farol de Santa Marta – 97 km (GPS https://www.strava.com/activities/244267585 )– Hospedagem Camping Cardoso
  • Dia 3 – Folga no Farol
  • Dia 4 - Farol de Santa Marta – Araranguá – 97 km (GPS https://www.strava.com/activities/245163530 e https://www.strava.com/activities/245163537 ) – Hospedagem Casa de Sander e Patrícia (Warmshowers)
  • Dia 5, 6 e 7 – Folga em Araranguá
  • Dia 8 - Araranguá – Torres => 70 km (GPShttps://www.strava.com/activities/248284256 ) - Hospedagem Camping Furnas
  • Distancia total percorrida: 350 km


Mais fotos deste trecho da viagem aqui!!!



Gostou da ideia, quer saber mais e principalmente fazer parte dessa ideia maluca? 

Vem aqui e veja como pode colaborar!!! :)


Quer saber das outras pedalADAs? Veja aqui no mapa !

Bons pedais pessoal e até as próximas!!!




Comentários

  1. Ei, Ada, que delicia!!! E tá pedalando bem, hein?? 90, 100km/dia vários dias seguidos é para poucos!!

    Aproveite e curta cada segundo!!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Hahaha...isso só no início Tati, agora tem dia que são 10km...rss...brincadeira, mas depende muito de onde tenho que chegar!!! :)

      Excluir
  2. Tá bonito!!! Vontade de estar junto! Conta mais! Bj!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Sujou...pintou cachorro na área...o que fazer???

Documentário: "Um ano entre Kouru e Ushuaia.

Aplicativos úteis em viagens de bicicleta!