Uma pedalADA pela América - Rumo à Venezuela e ao tão esperado Monte Roraima



""Ser capitã desse mundo
Poder rodar sem fronteiras

Viver um ano em segundos

Não achar sonhos besteira
Me encantar com um livro
Que fale sobre a vaidade

Quando mentir for preciso

Poder falar a verdade"
Shimbalauê - Maria Gadú

Eu estava em Boa Vista há alguns dias. Essa cidade, capital do estado de Roraima parece cidadezinha de interior. É a única capital brasileira situada acima da linha do Equador e foi planejada tendo a forma de um leque. A cidade fica a margem direita do Rio Branco, que percorre todo estado até se encontrar com o Rio Negro no Rio Amazonas.

Depois conto com detalhes, mas aqui tive a sorte de ser recebida pelo Kayo Soares, por indicação de dois amigos cicloturistas, o Beto Ambrósio e o Rafael Parra.

O Kayo é um menino cheio de histórias, conhece esse norte e nordeste do nosso país melhor que muita gente. Eu até hoje não conheci gente que tenha viajado mais que ele por essas terras. Ele viajou de bike por mais de 2 anos por todo estado do Amazonas, Roraima, Macapá, Pará indo até o Ceará. Foram mais de 20.000km nessa viagem. Ele é o tipo de pessoa que só em falar em cicloviagem os olhos já brilham. Além de tudo isso é uma pessoa linda e um artista e tanto. Faz cada desenhos e caricaturas que são inacreditáveis, veja aqui um pouco mais dos trabalhos dele. Sorte minha vir parar aqui.

Ele por internet já tinha me ajudado muito no caminho Manaus -Boa Vista e agora, igualmente me ajudou no caminho Boa Vista – Venezuela.

Fiquei na casa dos pais dele por dois dias preparando pra seguir rumo à Venezuela. Na saída de Boa Vista tenho a companhia do Kayo por alguns quilômetros.



A estrada é um pouco monótona. Plana todo tempo e eu numa preguiça que só. Eu sabia que um bom lugar pra parar pra dormir era num restaurante no quilômetro 100, ou seja, eu tinha que deixar a preguiça de lado pra conseguir chegar lá até o fim da tarde.

Às 16hs chego num posto de gasolina meio que abandonado. Cheio de bons lugares pra dormir. Peço um pouco de água e pergunto se podia passar a noite ali. A moça educadamente me disse que não tinha permissão pra deixar. Só mesmo com o dono e ele não estava.

Segui então mais 2 km até um restaurante chamado “4º de Bode”. Peço um café e em seguida pergunto se posso passar a noite. Não só deixaram como me deram um lugar especial pra colocar a barraca, com direito a banho e até Wi-Fi. Praticamente hotel 5 estrelas.

Nesse dia liguei lá em casa. Tinha ali um orelhão que inacreditavelmente funcionava. Passei mais de meia hora falando com a família até que um certo alguém pergunta se eu não ia sair nunca mais dali. Uai, eu nem vi que ele tava esperando pra usar o telefone. Podia avisar né!

Informo lá em casa que provavelmente ficaria uns dias sem internet e sem dar notícias. Afinal seriam 7 dias lá no Monte Roraima e mais uns 3 dias até chegar lá.

O dia seguinte de estrada foi sem muita novidade. Reta infinita, paisagem monótona e muito sol. Neste dia por um longo trecho não tinha nada de casa e nem de lugar pra pegar água. Comecei a preocupar quando vi que minha água acabava.

Mas sempre Deus é tão bom, minutos depois que senti isso para um carro, me dá água e ainda bananas. Era um senhor lá de Minas Gerais. Bom demais da conta sô, eu pensei. Agradeci, conversamos um pouco e seguimos.

Depois as subidinhas começaram e com elas apareceram aldeias indígenas. Passei até na terra de Macunaíma. Tinham umas malocas bem grandes. Pensei em dormir aí. Chamei mas não apareceu ninguém então segui um pouco mais.

A lenda de Macunaíma

 Havia uma montanha extremamente alta em Roraima e no topo dela existia um lago, que era um expectador do amor entre o Sol e a Lua. A paixão entre os dois era praticamente impossível, porque quando o Sol nascia a Lua se escondia, e vice e versa. Um dia a natureza promoveu o encontro dos dois apaixonados e então o eclipse se formou. Do lago cristalino da montanha surgiu Macunaíma, o curumim do Monte Roraima.

Macunaíma cresceu e logo se transformou em um bravo guerreiro, era o grande índio da aldeia Macuxi. Bem próximo à tribo, existia uma árvore chamada de “Árvore de todos os frutos”, onde nela brotavam diversas frutas, como banana, abacaxi, melão e tantas outras. Apenas Macunaíma tinha autoridade para colher os frutos e dividi-los de forma igual para todos da aldeia, mas isso revoltou alguns índios e causou inveja em tantos outros. Em uma noite, alguns índios roubaram os frutos e destruíram alguns galhos da árvore para tentar fazer novas árvores iguais àquela. A saudosa “Árvore de todos os frutos” morreu. Macunaíma teve que castigar todos os culpados e ateou fogo em toda a floresta, fez com que as árvores virassem pedras e os habitantes tiveram que fugir.

Segundo a lenda, até hoje o espírito de Macunaíma vive no Monte Roraima, e há quem ouve seus choros pela morte da “Árvore de todos os frutos”.

Fonte: http://www.seumochilao.com.br/a-terra-de-macunaima-onde-o-brasil-comeca/ 




A minha casinha já estava reservada, e foi o melhor lugar do mundo. Era a casa do seu Raimundo e da Dinalva e de uma família gigante e de coração de igual tamanho.

O senhor Raimundo estava cortando lenha. Fui lá perguntar se podia passar a noite. Foi eu chegar com a Branquinha que começa a aparecer criança e animaizinhos de todo lado. Rapidamente fico amiga da Maria (3 anos) e da Karina (6 anos).



Elas me convidam pro que seria a melhor parte do dia. Banho de igarapé. Que coisa boa que foi isso. Elas já chegaram donas do terreno, tirando as roupinhas e pulando com tudo. Ai que coisa boa que é ver criança assim, tão livre, tão pura e tão simples.

Tomamos banho, brincamos, lavei roupa e rimos até. Voltamos pra casa e fui armar a barraca. Tudo pra elas era uma tremenda novidade.


A noite veio linda, céu super estrelado e com uma lua gigante. Me convidaram pra jantar com toda família reunida, que passavam de 10 pessoas. Tudo que de melhor eles tinham, eu tive também. Comíamos sob a luz de uma lamparina delicioso baião de dois e paçoca (farinha com carne). A mãe me pede desculpas por “só” ter aquela pouca comida pra oferecer.

Imagina se isso era pouco!!! Eu disse a ela que eu era muito grata por estar ali com eles, por eles terem me recebido e ainda por me darem alimento.

Essas experiencias na viagem tem me feito refletir muito e dar muito mais valor à pequenas coisas da vida. Eu sempre fui consciente neste sentido. Mas essa viagem me fez ir além. O amor e a generosidade das pessoas é algo que me comove e fico a pensar, vivenciando isso praticamente todos os dias, como ainda pode ter maldade no mundo?

No meu mundo, neste que vivo todos os dias, graças ao Grande Mestre, só tem aparecido gente boa. E que siga assim!!!!

Antes de dormir a Karina me disse: “não gosto mais de você”!

Sem entender, pergunto o que eu tinha feito de mal a ela. Então ela diz: “é porque você vai embora amanhã”!!!

O coração parte nestas horas. Como em tão pouco tempo pude receber tanto amor de uma pessoinha?

Expliquei que eu tinha que seguir, mas ela seguia comigo em meu coração, guardada nas fotos e nos desenhos que tinha feito no meu caderno. E que um dia, quando eu pudesse eu voltava. Ela sorriu e me deu abraço de boa noite.


“ Apenas uma declaração de amor”

Como Não AMAR 
Apenas uma declaração de amor a tantos seres lindos que tenho a sorte de encontrar quase todos os dias no meu caminho... 

Como não amar, essas e tantas outras criaturinhas lindas, que abrem as portas da sua casa e do seu coração, pra você, um ser estranho, que acaba de chegar, toda suja e fedorenta, Deus sabe de onde... :p

Que te dão abraço apertado sem você pedir...

Que te levam pro melhor banho de igarapé do mundo, mostrando a simplicidade , inocência que a gente não devia perder nunca...

Como não amar essas criaturas que fazem um desenho lindo, pra que você possa levá-las contigo pra sempre...

Como não amar essas criaturinhas que acordam cedinho, olham pela janela apreensivas, só pra ver se você ainda está por lá...

Como não amar a Maria (3) e a Karina(6), dois seres tão pequenininhos, mas tão lindos, parte de uma, simples, linda, e grande familia que somente emanam AMOR!!!!

Família esta, que assim como tantas outras por tantos países, me acolheram por este caminho... Como não amar a cada uma destas pessoas...

Mas sempre fica uma saudade no peito, uma pergunta: Será que um dia a gente se vê de novo?

Tomara que sim (sei que as vezes será difícil)... mas se não...sou grata pelo muito de cada um de vocês (TODOS) que levo comigo e espero deixar também um pouquinho de mim com vocês....

AMOR e GRATIDÂO pelo caminho....

P.S: As vezes tenho a sensação que preciso de um novo coração... SOCORRO... esse parece não caber tanto amor!!! <3


Eu na minha barraca, eles espalhados pelas 3 casas em camas e redes por toda parte.

Durante a noite veio uma chuva e uma ventania que eu fiquei com medo de ser levada junto com a barraca.

Já cedinho, com o cantar do galo e com o forró do rádio do seu Raimundo eu me desperto e começo a arrumar as coisas.

Me convidam pro café. Da janela a Maria e a Karina conferem se eu ainda estava por lá.

A hora da despedida sempre a parte mais dura. Um abraço apertado em cada um e lágrimas nos meus olhos e nos olhos de algumas delas.



É só pedalar e vir uma explosão de sentimentos e de emoções. Será mesmo meu Deus que mereço tudo isso?!!!

Saí com o coração cheio de amor e com a certeza de que por algum motivo eu tive que passar por essas vidas. Espero ter deixado algo de bom. Mas eu tenho a impressão de que sempre eu que saio ganhando...amor, carinho e a certeza de que o mundo é feito de pessoas do bem.

Acho que tanta emoção me deu até dor de barriga. Foi pedalar uns poucos quilômetros que veio um piriri forte. Foi parar a bike e correr pro mato, sem nem preocupar se tinha carro passando e vendo coisas... Nessas horas nem sobra tempo pra pensar nisso. Visto a capa da invisibilidade e pronto.

Antes de chegar à cidade de Pacaraima, que faz fronteira com a Venezuela, vieram umas subidas boas, dessas que eu não via há tempos.

Matei saudade das subidas e cheguei em Pacaraima. A cidade estava meio conturbada. Era sábado, e tinha muita gente. Maioria venezuelanos. Todas as lojas pareciam verdadeiros supermercados, ainda que fossem farmácias ou papelaria, porque em todo lugar vendia comida. Fardos de arroz, feijão, itens de higiene básica.

Fui compreender que, claro, era por causa da crise econômica, politica e social que a Venezuela vem enfrentando. Em alguns lugares, eu já tinha escutado que faltava comida.

Com medo disso aproveitei e fiz uma compra reforçada (miojo e aveia pra sobreviver por uns 7 dias).

Passei na Policia Federal e esperei mais de uma hora pra dar saída no passaporte e do lado venezuelano, coisa de minutos. Pronto, sem muita emoção, eu estava no nono país da viagem.




Engraçado, você cruza fronteira e tudo muda. A paisagem já era diferente. Faltavam apenas 18km pra chegar à cidade de Santa Helena de Uairém e eu queria chegar logo. Não sabia como estava a situação por lá e ainda tinha que buscar hospedagem.

Me indicaram 3 hoteis econômicos por lá, com a sorte que eu estava não tinha vaga em nenhum deles. Fui em outro, que não era tão barato pro padrão Venezuela, mas ainda assim não era tão caro. E como estava cansada e “naqueles dias” nem pensei muito. Tudo que queria era um bom banho e um quarto tranquilo pra descansar.

Troquei um pouco de dinheiro ali mesmo no hotel e fico impressionada. Menos de 50 reais significavam uma montanha de notas de dinheiro venezuelano. Isso foi algo que me desesperou. Pensava que ia ter que carregar dinheiro na mochila, porque na minha humilde carteira aquela quantidade de notas não iam caber.



Dia seguinte fiquei em Santa Helena pra descansar e correr atrás do guia pra subir o Monte Roraima. Queria acertar tudo por aqui, ainda que saísse mais caro. O Gustavo, guia que eu já estava negociando há algum tempo me procura e me propõe subir só comigo por um preço mais econômico do que as agências locais. Nem pensei muito, aceitei a proposta e combinamos iniciar a subida daí a 2 dias em Paraitepui, cidade base do Monte.

Uma consideração: a subida ao Monte Roraima só é permitida com a presença de um guia. Você deve contratá-lo por meio de uma agência de turismo, seja na Venezuela ou no Brasil, ou pode contratar guias locais, lá mesmo em Paraitepui.

Ele ainda me deu dicas preciosas do caminho. E que caminho!!! Eu neste dia completava um ano e cinco meses de viagem. Como o tempo voa. E estava a caminho de realizar um sonho antigo.




La Gran Sabana é MARAVILHOSA. É uma paisagem de tirar o fôlego. Uma planície extensa, com algumas palmeiras e no fundo você sempre vê algum “tepuy”, que são as montanas que se formam e por cima são planas como uma mesa. É tão bonito que as vezes me emocionava com tamanha beleza.

Eu não me cansava de tirar fotos, queria guardar um pedacinho desse lugar comigo, pra sempre. A chuva foi minha companheira em alguns momentos, mas isso não atrapalhou em nada.




No caminho ainda parei em duas lindas cachoeiras e não resisti a um banho refrescante e reconstituidor de energias. As subidas de novo apareceram, mas nada que abalasse as perninhas já acostumadas.




De longe, avistei a montanha mágica. Sim, ele,o Monte Roraima, teimava em não aparecer, mas se deixou ver por entre as núvens por alguns minutos. Era difícil de acreditar que em alguns dias eu estaria lá em cima.

Dali tentava estabelecer uma conexão com ele. O meu respeito e minha admiração são do tamanho dela. Enquanto ela se mostrava, conversamos.





Pedalo forte pra chegar a San Francisco ainda com luz. Estava cansada e consigo um quarto por um bom preço (menos de R$ 15,00),resolvo descansar aí e aproveito para carregar todos os equipamentos eletrônicos, afinal, nos próximos dias nada de energia elétrica.



De San Francisco ao povoado de Paraitepuy eram menos de 30km. Mas pensem numa estrada gostosa e dura. Trecho lindo, todo de terra, mas com subidas impossíveis de pedalar. E se pedalar nestas subidas era difícil, pra mim mais difícil ainda era empurrar a bike.



Consegui chegar a Paraitepuy no fim da tarde e consigo um lugar espetacular pra acampar. Eu ia dormir bem de frente pra montanha mágica. Foi sem palavras passar a noite ali contemplando essa imensidão e vê-la surgir no outro dia junto com o raiar do sol!!! Foi uma das paisagens mais lindas que vi até este momento da viagem.


Pela primeira vez na viagem tive um pequeno contratempo com minha barraca. Esqueci comida fora do alforge, dentro da barraca, que estava fechada. Saí pra dar uma volta. E quando retornei, lá estava um cachorro, dentro da barraca. Não acreditei. O maldito fez o favor de rasgar a minha casinha só pra comer uns poucos amendoins. Haaa como fiquei brava com esse cachorro.

Mas, paciência. A falha foi mesmo minha. Ele apenas estava tentando garantir a sua janta. Foi mais uma lição aprendida. Comida, sempre deve estar bem guardada dentro do alforje e de preferencia longe da barraca.

O dia clareou e eu não acreditei no que vi. O sol raiando e junto com ele o Monte Roraima se mostrando todinho pra mim. Agradeci com toda força do mundo por estar ali e de novo pedi permissão pra ingressar nesse templo. Toda montanha é um templo sagrado e pedi para que tudo desse certo na nossa longa caminhada. Dalí em diante seriam 7 dias em mais puro contato com a natureza.



A gratidão é mesmo algo muito mágico. Comecei a pensar na viagem, em estar ali. Eu desejei muito este momento e estava começando a realizar um sonho. Pensei no quanto sou feliz por poder realizar tudo isso e de novo apenas gratidão, gratidão e mais gratidão.

Comecei a fazer umas contas bobas...A gente na vida “normal” tem um mês de férias por ano. Eu, ao final, espero viajar por 22 meses. Isso significaria que numa vida normal, eu demoraria 22 ANOS pra realizar este sonho...imagina que loucura. Uma vida inteira. E pensei de novo, como foi bom ter tomado a decisão de estar ali realizando um sonho. Quanta gente anda matando a sua vida apenas por mais trabalho que “resulta” em mais dinheiro. Quando as pessoas vão conseguir dar real valor ao que realmente merece valor?

Deixei de pensar tanto e fui arrumar as coisas. Tomei aquele café e já estava ansiosa pra chegada do Gustavo...tudo isso ainda admirando a montanha mágica que pouco a pouco era coberta pelas nuvens.



Como eu disse antes, o meu guia, o Gustavo, trabalha aqui há bastante tempo, há quase 20 anos. Eu esperava por ele lá no escritório do Parque Nacional Canaimas. O pessoal me perguntou quem era meu guia e eu respondi. Todos diziam que ele era meio maluco. Eu só pensava, ai meu Deus, vai que este homem não aparece, como vou fazer. Tinha pagado tudo pra ele antecipado,confiando nele e nas recomendações que me deram.

Bom, não tinha nada o que fazer a não ser esperar. E ele chegou. Já quase meio dia mas chegou. Chegou e conseguiu um porteador lá da vila mesmo (porteador são as pessoas que sobem junto com a gente ajudando a carregar as coisas).

Vocês pensam que é fácil? Imagina levar comida, combustível pra cozinha, fogareiro, barraca, e tudo mais pra duas pessoas por 7 dias. O que mais pesa é sem dúvida a comida.



Bom, as 13hs começamos a nossa caminhada, neste dia algo leve, até o acampamento Rio Teck. Chegamos lá por volta das 16 horas, foi tempo de organizar as coisas, tomar banho de rio e comer.

David - Nosso companheiro 

Casinha no acampamento Rio Teck




Normalmente as agências de turismo oferecem o pacote básico ao Monte Roraima por 6 dias. Mas fica tudo muito corrido, eu acho. Eu optei em fazer em 7 dias por alguns motivos: faríamos a subida em 3 dias (não ia ficar tão pesado e cansativo), ficaríamos 3 noites lá em cima, o que resultava em mais tempo pra aproveitar na melhor parte, no alto da montanha.

Aqui, pra quem quiser segue o contato dele, a empresa é Punto Cero !!!

Bom, a convivência com meu guia era boa, apesar de as vezes achar ele bem desorganizado com as coisas ( e olha que eu sou péssima nesse quesito). Mas enfim, por alguns dias a gente pode relevar algumas coisas né. E eu via o lado bom dele, um excelente guia e conhecedor como poucos das terras que estávamos adentrando.

O segundo dia a subida começa, mas ainda é tranquilo. Chegamos bem cedo ao acampamento base, eram duas da tarde. Esse acampamento é lindo. Você está literalmente aos pés do Monte e parece impossível que no outro dia você estará lá em cima.




Tivemos um ótimo fim de tarde, com sol e bonita paisagem. De novo banho super gelado no rio. Dormimos sós neste acampamento. Foi uma tranquilidade total. No início da noite choveu bastante, mas quando já está dentro da barraca é bom demais dormir com o barulhinho da chuva.



Ao lado do Monte Roraima se pode ver um outro lindo “tepuy” conhecido como Kukenan. Esta montanha segundo a lenda é o irmão mal do Monte Roraima. Segundo reza a lenda, há muitos anos atrás, os indígenas que descumpriam seu papel como guerreiros ou como homens da casa não podiam mais fazer parte da tribo e como castigo tinham que subir até o topo de Kukenan e se jogar lá de cima. Por isso ficou conhecida como montanha má.



Ainda segundo meu guia, muitas pessoas que tentaram subir a Kukenan desapareceram e nunca mais foram encontradas.

Seja como for, Kukenan tem igual beleza, e talvez ainda mais beleza porque esconde muitos mistérios.

Nesta noite senti um pouco de frio, lembrando que meu guia maluco, ia trazer um saco de dormir pra mim, mas ele simplesmente esqueceu. Fiquei muito triste com isso, mas fazer o que né? Coloquei todas as roupas de frio que tinha e graças ao meu bom colcão, que isola bem o frio, eu consegui ter uma boa noite de sono.

O dia seguinte amanheceu ainda com muita chuva. Fiquei na barraca enquanto podia. Só saí quando a vontade de fazer xixi foi maior.

Esperamos a chuva passar um pouco pra organizar tudo e tomar café. Se tem uma coisa que não gosto é guardar a barraca molhada, mas hoje realmente não teve jeito.

Este dia seria duro. Não pela quantidade de quilometros que teria que caminhar, mas pela parede que teríamos que subir. É literalmente uma parede. Em um momento, você consegue ver as pessoas como pequenos pontinhos bem lá em cima. É difícil acreditar que é possível realmente subir até lá.

E por ser terceiro dia, o cansaço acumulado e a grande subida me deixaram muito cansadas. A coluna começa a sentir o peso da mochila. Tudo começa a incomodar um pouco. Mas essa sensação passa quando se olha em volta e vê uma paisagem tão linda como essa.



O dia se fez bem bonito e a paisagem ainda mais bonita. Na metade do percurso se pode tocar as paredes do monte. É o primeiro contato físico com a grande montanha. Neste momento é possível sentir a energia mágica que envolve este lugar. Eu estava na formação geológica mais antiga do planeta. De onde possivelmente originaram muitas formas de vida que temos hoje.

Novamente, pedi proteção e permissão para entrar neste lugar sagrado.

Depois de mais de 5 horas de caminhada chegamos no alto do Monte Roraima. Lá embaixo tudo era pequeninhinho. Era uma sensação tão boa de conquista, superação chegar até ali.

Nesta viagem, tive a sensação de que os momentos de maior conexão com Deus e com o universo acontecem estando na montanha. Seja pedalando por uma grande subida, você tem tempo e oportunidade de pensar em tanta coisa, de refletir e de até meditar. E no trecking é a mesma coisa, cada passo te leva pra longe. A conexão com a natureza é realmente muito forte.

As montanhas nos levam a pensar, a refletir. Elas nos ensinam muitas coisas e nos mostram, naturalmente, respostas aos questionamentos e dúvidas que temos.

Enfim, tempo pra pensar e refletir foi o que eu mais tive.

De novo tivemos uma sorte tremenda. O fim de tarde foi lindo. Conseguimos um bom hotel pra passar a noite. Eles chamam de “hotel” as “cuevas”, cavernas. São lugares perfeitos pra colocar a barraca, pois são protegidos do vento e da chuva.


Quem achar minha barraca em meio a multidão ganha um prêmio!!!

Casa com vista pro Maverick


Nosso hotel, arenal, estava vazio. Tivemos de novo sorte de ter um acampamento inteirinho pra gente.

Neste dia subimos só eu e o Gustavo. Ele subiu com muito peso. Chegamos e ele realmente estava muito cansado. Mas ainda na subida ele me disse uma coisa bonita. Disse que realmente ele estava muito cansado, que em tantos anos essa talvez tenha sido a subida mais dura, mas buscava forças em mim e pensava: “ Dale hombre, esta mujer ha cruzado toda suramerica e n cicla para venir hasta acá. Dale, tu puedes, hágale!”





Eu também estava muito grata a ele, por ter sido tão solícito em se dispor a vir sozinho comigo até aqui. Ele me disse que essa era a 72º vez que ele subia o monte e que foi a subida mais dura de todas.

Armamos nosso acampamento e jantamos. As seis da tarde, da barraca, eu via o cair da noite neste lugar mágico que mais se parece outro planeta.

Tive um pouco de frio durante a noite, de novo não me perdoava por não ter o saco de dormir, mas são coisas que acontecem.

O gustavo preparou um super café da manhã. Eles faz umas comidas deliciosas. Hoje teve um pão típico da Venezuela e dos indígenas dessa parte, se chama dumpling. Muito simples, apenas farinha, água e um pouco de margarina e é feito na frigideira. Uma delicia! Aproveitei pra aprender com ele.


Mestre cuca Gustavo!!!


Aproveitamos os dois dias que ficamos no topo do Monte pra conhecer bem. Fomos em todas as partes mais “turisticas” e outras nem tanto. Neste dia a montanha parecia só nossa, não cruzamos com nenhum outro grupo de pessoas por lá. Fomos à toda parte: cachoeira catedral, jacuzis (rolou até banho gelado), ventana (que estava com muitas nuvens e não deu pra ver muita coisa), plantas carnívoras, avistamos mais um monte de sapinhos (aqueles bem pequenininhos e que só existem aqui), vi e contemplei as rochas e seus formatos loucos, passamos pelo vale dos cristais, tríplice fronteira, maverick.




Animais que só existem nesse pequeno paraíso chamado Monte Roraima.

Jacuzi e um banho geladinho pra refrescar

A famosa "ventana" ou janela, que neste dia estava toda tapada.



Sobre os cristais uma curiosidade, eles são possuidores de muita energia e também, segundo dizem, se bem usados podem ajudar a limpar ou purificar as energias do nosso corpo. E uma das razões de o Monte Roraima ser considerado mágico, energético, é justamente porque possui muitos cristais lá em cima. O que na minha percepção deixa o lugar com uma energia única, capaz de transformar a nossa energia também.



Eu não sabia, mas se você fricciona dois cristais por um tempo, eles vão produzir calor e junto com esse calor vão produzir uma luz incrivelmente linda. Você pode fazer o teste. Essa energia produzida é uma energia pura e capaz de purificar a nossa energia.

Eu fiquei com vontade de saber mais sobre os cristais e sobre tudo isso de energias. É algo que investigarei.

Caminhar lá em cima de dá a sensação de que está em outro planeta. Pedras negras, de formas diversas por toda parte. Poucos seres vivos, e as vezes o céu azul.





Uma imensidão incrível. Os pensamentos se perdiam com o olhar e com o caminhar. Se caminha horas apenas com o som do vento e da respiração. E é muito bom “escutar” e fazer parte deste silêncio.

A sensação de estar ali foi parecida com a sensação que tive quando o mar, lá no Equador, quis me levar...Me sentia um grão de areia, apenas um pontinho, quem sabe uma formiguinha nessa imensidão negra que é o Monte Roraima.




Mas sentir isso é tão bom. Saber que o universo é tão grande e que somos apenas um pontinho, mas um pontinho vivo, com coração pulsante, e cheio de amor. Um pontinho que deseja ser cada vez mais parte desse universo que habitamos, um pontinho que deseja fazer o bem, que apenas quer amar e ser feliz.

Início da descida...nossa despedida e agradecimento à montanha!


Aproveitei os dias ali em cima e caminhando de regresso à Paraitepui para agradecer. Por estar ali, junto à montanha mais antiga do planeta. Em união e comunhão com o universo e com essa montanha mágica.

Foi realmente a realização de mais um sonho...e é tão bom sonhar e poder, pouco a pouco, realizar os nossos desejos.

Que venham muitos outros sonhos... a vida precisa de sonhos...a gente precisa de sonhos pra se sentir mais vivos.



Terminamos nossa caminhada depois de 7 dias. O cansaço foi extremo. O esforço físico advindo de um trecking é muito diferente do mais duro dia de pedal. Descansei um dia em Santa Helena de Huairen e depois retornei de ônibus pra Boa Vista.

Em Boa Vista de novo teria que me preparar pra uma deliciosa e desconhecida parte da viagem...Guianas e Suriname.


Gratidão Monte Roraima!


Topo do Maverick

Tríplice fronteira Guiana, Venezuela e Brasil.


RESUMO DESTA PARTE DA VIAGEM:

Boa Vista a Meio do Caminho (km 100): 100km – Hospedagem: Restaurante 4º de Bode
Meio do Caminho a Meio do Caminho: 80km – Hospedagem: Casa da família do seu Raimundo
Meio do Caminho a Santa Helena de Uairén: 50km - Hospedagem: Hostel (não lembro o nome mas                                                                            fica na rua dos turistas)
Santa Helena a San Francisco: 80km - Hospedagem: Hospedaje Menina
San Francisco a Paraitepuy: 30km (mas duros) - Hospedagem : Camping no povoado perto do hotel
Subida ao Monte Roraima: Total de 7 dias




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Bons pedais pessoal e até as próximas!!!











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